O AUTOR: Ludwig Von Mises (1881-1973) é o maior expoente da chamada Escola Austríaca de Economia. Sua obra vai muito além da análise econômica, e absorve uma infinidade de perspectivas éticas, jurídicas e filosóficas.

1 – Cooperação humana

Toda a sociedade como a conhecemos hoje se desenvolveu a partir da cooperação social voluntária, que é a divisão de trabalho, onde nos ligamos aos outros, produzindo, recebendo e consumindo.

O mercado é a liberdade das pessoas de determinar o que produzir e consumir, em qualquer quantidade e qualidade, e a quem quer que os produtos se destinem. 

Um sistema livre como esse é impossível sem o mercado e um sistema livre assim é o mercado.

É um erro comum achar que o governo é uma instituição superior e independente quando, na verdade, o governo nada pode produzir.

2 – O meio de troca – o dinheiro

O dinheiro é um fenômeno do mercado, resultado de uma evolução histórica milenar que gerou esse instrumento comercial – um meio de troca. 

Após um longo processo, alguns governos fomentaram a ideia equivocada de que o dinheiro não é simplesmente um fenômeno do mercado, mas qualquer coisa que o governo chame de dinheiro.

3 – O papel dos tribunais e juízes

Todas as conquistas da ação humana foram resultado da cooperação voluntária entre os indivíduos – o mercado. Porém, sendo o sistema vulnerável à má conduta de muitos dos seus participantes, é necessário haver um árbitro para julgar os desentendimentos que ocorrem nos acordos realizados.

A principal, senão única, função do governo, tribunais e juízes é preservar tal sistema, sendo o uso da violência sua prerrogativa para conseguir tais fins. Infelizmente, o que os governos vêm fazendo por milhares de anos é abusar da posição que lhe foi dada, alterando o entendimento do conceito de dinheiro e manipulando seu valor.

4 – Ouro como moeda

A utilização de metais preciosos como meio de troca não foi criada pelos governos, é resultado da evolução natural do comércio e sua utilização como padrão monetário se deu por séculos.

Somente algo disponível em quantidade limitada pode ter valor comercial. Esse é o caso do ouro que, além de naturalmente escasso, tem um custo de produção mais alto do que o de sua aquisição. 

Governos sempre tentaram se apropriar dessa criação, o que foi facilitado pela invenção da imprensa e do dinheiro impresso. Atualmente, não se respeita mais o padrão ouro e o valor dado à moeda é fiduciário, ou seja, na fé que as pessoas têm em seu valor definido pelos governos. Essa confiança excessiva e perigosa pode levar à destruição do mercado, ou seja, da cooperação voluntária e pacífica entre os homens. 

5 – Inflação do ouro

Apesar de sua escassez natural, descobertas de novas minas, ao aumentar sua quantidade circulante no mercado, podem levar à diminuição temporária do poder de compra do ouro. Mas, são eventos excepcionais e este aumento é rapidamente integrado no sistema monetário.

6 -Inflação

O aumento da quantidade de dinheiro em circulação melhora temporariamente a situação de pessoas ou parte de uma sociedade. Mas, com o aumento da quantidade de dinheiro sem o devido aumento das coisas que podem ser compradas, o processo de absorção deste acréscimo de dinheiro no mercado gera naturalmente o aumento dos preços dos bens. O aumento dos preços não é a inflação, mas consequência da inflação das moedas em circulação.

Governos são muito tentados a imprimir mais dinheiro para supostamente resolver seus problemas de curto prazo. Se eximem da culpa do aumento de preços procurando achar outros culpados que não ele mesmo, e transferem a conta do problema para os próximos governos.

A solução eficaz do ponto de vista teórico é a adoção do padrão ouro.

7 – A inflação destrói a poupança

Toda ação que o governo faz contra o poder de compra da moeda, faz contra a classe média e trabalhadora. A tragédia é que somente essas pessoas não sabem disso e acabam apoiando uma política destrutiva a si próprias. 

A diminuição do poder de compra da moeda atinge diretamente a poupança e a previdência que foram acumuladas justamente para quando as pessoas não tiverem mais condição de trabalhar. 

Governos tentam se tornar populares em cima dos resultados positivos sobre os gastos, mas, o problema é que financiar uma “guerra contra a pobreza” taxando, gerando inflação e gastando, acaba por sacrificar a poupança do povo. As pessoas juntam suas economias para o governo gastá-lo.

8 – Inflação e controle governamental

Governos sempre precisam aumentar seus gastos por questões diversas. O problema é que aumentar impostos gera impopularidade e pegar emprestado nem sempre é viável. A solução mais simples e barata é a inflação, a simples impressão de dinheiro novo.

A sequência natural da inflação é o aumento dos preços. Para evitar a pressão social, os governos podem tentar congelar os preços, mas as consequências são ainda piores. Num primeiro momento, o produtor é penalizado absorvendo prejuízos. Em seguida, naturalmente, há uma diminuição gradativa da produção, podendo chegar à sua parada total e levando ao desabastecimento. A perda de poder de compra se transforma então em impossibilidade de compra. 

A conclusão é que as intervenções no mercado por parte dos governos geram efeitos inevitáveis que são ainda piores que o estado de coisas que eles queriam modificar.

9 – Dinheiro, inflação e guerra

A guerra é uma situação em que normalmente os governos aproveitam para criar inflação. Justificam a destruição da própria moeda por um bem maior: a soberania. O problema é que a inflação é uma solução ilusória e suas consequências sempre são negativas.

O caso alemão na 1a Guerra Mundial é um bom exemplo. No período pré-guerra, o governo, após muitas décadas de estabilidade econômica, imprimiu grande quantidade de dinheiro para investimento militar. O resultado foi a deterioração completa da moeda sem melhoria em suas forças armadas que acabaram derrotadas.

10 – O lado constitucional da inflação

Além do lado econômico, o assunto inflação tem um lado constitucional.

As constituições modernas são baseadas no fato de que o governo depende financeiramente das pessoas e, indiretamente, dos políticos escolhidos para a assembleia constitucional. São a representação da moral, das ideias e da filosofia real de seu povo.

Em tese, nesse sistema, o governo não pode gastar nada que não tenha recebido da população através dos impostos. Na prática, os governos ao imprimir seu próprio dinheiro, tornam essa regra inútil e adquirem um poder, através da inflação, de tirar tudo das pessoas sem seu consentimento.

11 -O capitalismo, os ricos e os pobres

Na era pré-capitalista, os ricos eram proprietários de todos os bens e credores dos pobres que nada tinham. Nessa condição, o efeito da inflação, ao diminuir o poder de compra da moeda, beneficiava as massas devedoras em prejuízo dos ricos credores.

Desse período vem a ideia ainda vigente de que a inflação é vantajosa para o povo e prejudicial aos ricos.

O que poucos percebem é que devido à nova e complexa organização do sistema financeiro essas ideias não se aplicam.

Atualmente, os ricos, donos das grandes empresas, tomam dinheiro emprestado dos bancos para utilizá-lo na condução de seus negócios e tornam-se devedores. As massas investem em ações, poupança, previdência, etc e tornam-se credores. Com isso, ao diminuir o poder da moeda pela inflação, as massas são quem arcam com o prejuízo.

Além disso, o governo acaba concedendo “benefícios” inflacionários aos ricos emitindo-lhes empréstimos mais baratos. Geram inflação e confundem o povo para não perceber que passou a ser o credor do sistema.

12 – DESVALORIZAÇÃO MONETÁRIA NO PASSADO

Os agentes inflacionários já existiam muito tempo antes da imprensa. A maior diferença em relação a hoje é que era mais difícil para os governos criarem a inflação da moeda. 

A maneira mais comum era adulterar a moeda cunhada. Podia-se misturar um metal menos precioso na cunhagem ou diminuir sua espessura. Os efeitos inevitáveis da inflação sempre surgiam e recaiam sobre a população indefesa.

13 – MUITOS PROFESSORES DE ECONOMIA ACREDITAM QUE A QUANTIDADE DE DINHEIRO EM CIRCULAÇÃO DEVERIA AUMENTAR

O que tais professores parecem não perceber é que, devido ao aumento de preços gerados por essa inflação monetária, toda a parcela da população que não recebe esse dinheiro extra é prejudicada. Sua quantidade de dinheiro não aumentou e seu poder de compra diminuiu.

Políticos, muitas vezes sob influência de maus professores, decidem imprimir dinheiro para resolver vários problemas. Ocorre que os efeitos dessa decisão são muito prejudiciais ao sistema como um todo e a última condição deste se torna pior que a inicial. 

É preciso entender que a moeda é apenas um meio de troca e, por si só, não melhora as condições da economia. Criar mais moeda beneficia apenas alguns grupos da sociedade em detrimento da massa popular.

Infelizmente, é comum criticar a desigualdade apoiando os fatores que a geram.

14 – DOIS PROBLEMAS MONETÁRIOS

A partir do momento em que os governos se deram o privilégio de cunhar suas moedas, abriram-se possibilidades que levaram a diversos abusos e geraram vários problemas. Dois desses problemas básicos são:

  1. O aumento dos preços por haver mais dinheiro buscando pela mesma quantidade de bens
  2. A impossibilidade de se conseguir determinados bens pela parte da população que não teve acesso a esse dinheiro criado

Para sustentar essa situação, governos dissimulam essa relação simples usando termos que não dizem nada ou que dizem o oposto do que é na realidade. É comum chamar de inflação o aumento de preços e não ao aumento de dinheiro criado que leva a este aumento de preços.

15 – FINANCIAMENTO DA DÍVIDA

Termos técnicos têm o péssimo hábito de serem incompreensíveis para a maioria. Governos criam esses termos para não assumir que pretendem gastar mais do que as pessoas estão preparadas para pagar em impostos.  O método de “financiamento da dívida” ou a expressão “gastos deficitários” nada mais é do que imprimir dinheiro. É gastar mais do que se arrecada.

Na realidade, os maiores fracassos monetários foram feitos por governos e não por criminosos.

16 – EXPANSÃO DE CRÉDITO E CICLO ECONÔMICO

Expansão de crédito também é inflação. O que muda é a maneira que o dinheiro novo é introduzido na economia, através de empréstimos bancários às empresas, e sua consequência é o fenômeno do ciclo econômico.

Com baixas taxas de juros, o excesso de dinheiro na mão dos empresários cria uma condição artificial em que projetos anteriormente inviáveis se tornam viáveis. Porém, não havendo aumento dos bens de capital e apenas de dinheiro em circulação, esse boom de investimentos perdura até colapsar no momento em que se percebe que o “super investimento” é, na verdade, um mau investimento ou simplesmente um excesso de crédito em alguns setores da economia. 

Para haver um equilíbrio no sistema, o correto é aumentar as taxas de juros sempre que os preços dos bens subirem.

17 – DOUTRINA DA BALANÇA COMERCIAL, PARIDADE DE PODER DE COMPRA E COMÉRCIO INTERNACIONAL

O princípio que rege todos os mercados é o da paridade de poder de compra. Ele determina que existe uma tendência à equalização do valor de troca dos vários produtos com a moeda e entre as várias moedas em circulação no mundo. Se ocorre um desvio desta paridade, surge uma oportunidade de lucro para os empresários. Porém, é impossível manter por muito tempo as ocasiões propícias ao lucro e as diferenças entre o poder de compra das várias moedas.

Governos, ao criarem inflação em diferentes medidas, alteram continuamente a taxa de câmbio entre os países. Daí surge a pressão imposta pelo princípio do poder de compra sobre o valor da moeda inflada. Para lidar com esse problema, os governos têm apelado à doutrina da balança comercial. Restringem a importação de bens, o que cria uma série de efeitos em todo o sistema comercial internacional e acaba voltando contra ele próprio, podendo até levar a seu isolamento econômico.

Criam ainda uma narrativa em que o culpado pelo aumento dos preços é a parte da população que importa produtos de luxo dos outros países,  ou que a importação se dá por necessidade básica de produtos indispensáveis à população. 

18 – LIQUIDEZ ENTRE BANCOS; RESERVA BANCÁRIA

Governos tentam baixar a taxa de juros para gerar um boom no mercado. Como consequência, a moeda desvaloriza e ocorre uma fuga de capital para países com moedas mais estáveis. Para justificar, utilizam a expressão “não existe liquidez ou reservas suficientes” no mercado monetário internacional, ao invés de assumir que houve inflação de dinheiro.

Para resolver essa situação, o FMI criou uma nova moeda de reserva imprimindo dinheiro novo e obrigou as pessoas a aceitá-lo. Mais uma vez a solução foi inócua.

É preciso abandonar todas as ideias de uma moeda artificial – moeda fiduciária e moeda de crédito. O meio de troca legítimo foi o criado pelo mercado.

19 – O MUNDO PRECISA DE UM BANCO MUNDIAL E DE MAIS DINHEIRO?

O aumento da quantidade de dinheiro em circulação favorece aqueles que o recebem às custas dos outros. Isso deixa desigual as relações entre indivíduos iguais.

A  criação do FMI como um banco mundial inflacionário é equivocada. Injetar liquidez no mundo só cria distorção e desigualdade, além de que, não é possível uma distribuição adequada do dinheiro entre os vários países.

20 – CONCLUSÃO

O dinheiro só pode entrar em operação e funcionar se não houver manipulação do seu valor. No sistema capitalista, todas as relações entre as pessoas, não só as pessoais e íntimas, são expressas, feitas e calculadas em termos monetários e uma mudança no poder de compra afeta todo mundo.

O que tem acontecido é que os governos, entre um imposto impopular e gastos populares, têm criado dinheiro artificial. Não consideram que quem criou o dinheiro legítimo foi o mercado e não ele próprio, e que, destruir o dinheiro é destruir o próprio sistema.