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O Valor do Amanhã

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O autor: Eduardo Gianneti nasceu em Belo Horizonte em 1957. É professor do Insper – Instituto de Ensino e Pesquisa e PhD pela Universidade de Cambridge.

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Prefácio

O desejo incita à ação e a percepção do tempo incita o conflito entre desejos. Sendo a vida finita mas de duração indefinida, cabe ao homem lidar com o dilema de suas escolhas temporais: desfrutar o agora ou cuidar do amanhã? Ousar ou guardar-se? Isso agora ou aquilo depois? 

Dessa comparação entre os valores presentes e futuros, surge o conceito de juros: o prêmio da espera decorrente da transferência ou cessão temporária de valores do presente para o futuro e ao mesmo tempo o custo da impaciência em antecipar valores do futuro para o presente.

O livro é conduzido sobre a ideia de que a realidade dos juros não se restringe às finanças mas permeia as diversas esferas da vida prática.

PRIMEIRA PARTE: As raízes biológicas dos juros

1 – Reprodução sexuada e mortalidade

As primeiras formas de vida do planeta eram organismos unicelulares que tinham a capacidade de replicar e transmitir seu código genético, em uma reprodução assexuada,  dividindo-se em dois novos organismos. Desta forma, a imortalidade era consequência natural da existência em sua elementar manifestação. 

Em determinado momento do processo evolutivo, surgiram organismos com células distintas: somáticas (células normais do corpo) e germinativas (com função específica de transmissão da informação genética – DNA). Essa condição possibilitou a origem da reprodução sexuada através do enlace de células germinativas de seres distintos.

A especialização celular trouxe maior diversidade e capacidade adaptativa ao ambiente, mas gerou uma sequela: a morte como corolário da existência. O fato é que as células somáticas têm um prazo de validade restrito. Sua capacidade de manutenção e autorreparo declina com o tempo. 

A finitude biológica é o preço da contribuição extraordinária do sexo.

2 – A bioeconomia da senescência

O como e o porquê do envelhecimento intrigam a humanidade e é tema controverso entre especialistas. É um fenômeno comum e universal e que apresenta um padrão cíclico de nascimento, maturação, ápice e declínio.

Apesar de toda nebulosidade, a hipótese básica da biologia evolucionária sobre a senescência é a de que ocorre uma troca intertemporal onde nossos genes descontam o futuro e programam as células somáticas para darem o melhor de si no presente. É um equilíbrio onde o alto gasto energético de manutenção e restauração corporal deve ser utilizado no intuito de garantir a condição de procriação.

A senescência é então o custo associado à exuberância da juventude, e a bioeconomia da senescência é o berço natural dos juros.

3 – A evolução da paciência: metabolismo

A finitude biológica é um condicionante de primeira ordem. Todas as nossas decisões acabam considerando esse fato, pois a sobrevivência no curto prazo é um imperativo. Mesmo nosso metabolismo guarda um forte vínculo com o processo natural de maturidade e horizonte natural de vida. Como exemplo, consideremos o acúmulo de gordura no corpo de vários animais que funciona como uma poupança precaucionária a que o metabolismo pode recorrer se necessário.

Também no reino vegetal observa-se operações sofisticadas de administração dos recursos em função do tempo. A vegetação também se previne quanto a perdas e estragos potenciais. O desfolhar do outono e a retranca do inverno têm sua razão de ser devido ao custo energético de se manter as folhas ativas num período de sol anêmico. 

As soluções encontradas na natureza não são, obviamente, deliberadas mas refletem a experiência acumulada de um gradual e milionário processo adaptativo.

4 – A evolução da paciência: comportamento

O comportamento é a continuação do metabolismo por outros meios. Viver no tempo implica enfrentar dilemas e explorar oportunidades intertemporais: a impaciência mata, mas o excesso de paciência também.

Se as soluções metabólicas são aquelas inscritas na morfologia e fisiologia dos organismos, as respostas comportamentais são as soluções das diferentes espécies frente às ameaças e possibilidades da vida finita. São também mais flexíveis diante das condições mutáveis de ambiente.

O instinto animal o incita a buscar o que deseja da maneira mais fácil e rápida possível interferindo na sua capacidade de atribuir valor ao que o futuro promete. O remoto convida à espera e o imediato exige e cobra satisfação. 

Experiências têm mostrado que apesar da influência instintiva, existe uma análise mais complexa de todos os elementos envolvidos na escolha entre o imediato e o futuro com recompensa. Entre obter $100,00 hoje ou $130,00 daqui 6 meses a maioria das pessoas opta por $100,00 mas se os parâmetros passarem para $100,00 daqui um ano e $130,00 daqui um ano e meio, a escolha muda. A impaciência tem uma graduação e pode ser representada numa curva hiperbólica.

5 – Tempo, troca intertemporal e juros

Ao contrário do espaço, em que se pode movimentar em várias direções, o tempo segue apenas um fluxo sem retorno. O presente foge, o passado é irrecobrável e o futuro incerto.

Mas isso não significa que o fluxo temporal não seja, apesar de muito restrito, aberto à negociação. O procedimento que abre essa possibilidade é a troca intertemporal, que está para o tempo, assim como o deslocamento está para o espaço. Antecipar custa, retardar rende. Juro e desconto são os vocábulos que denotam o termo de intercâmbio nas trocas intertemporais e são cada um a imagem simétrica invertida do outro: o juro olha daqui pra lá e o desconto de lá pra cá.

SEGUNDA PARTE: Imediatismo e paciência no ciclo de vida

6 – A dilatação da dimensão temporal

O homem se distanciou gradualmente de suas pulsões instintivas submetendo-as sistematicamente ao filtro de suas escolhas e visões do amanhã. A percepção do tempo foi sendo ampliada levando a uma crescente abstração do momento vivido. Abstrair é interiorizar-se e suspender o instinto numa percepção subjetiva da realidade. Assim, o homem adquire a capacidade de morar no passado e no futuro abrindo mão do próprio presente, mas sua atenção é sempre atraída ao presente pelo prazer e pela dor.

Quaisquer que sejam os valores do homem (hedonista, asceta, epicurista, estoico, romântico, utilitarista, etc) , eles precisam ser distribuídos no tempo e os determinantes das suas preferências temporais têm um fator especialmente relevante: o ciclo de vida.

7 – A escolha intertemporal do ciclo de vida: infância e juventude

O ciclo de vida descreve um arco de formação, auge e declínio. Os genes descontam o futuro e o corpo jovem prospera às custas do corpo velho. Quais são os efeitos desse fato biológico na formação de crenças e escolhas intertemporais?

Estudos revelam que quanto mais tenra a idade de uma criança, maior sua impaciência. Além disso, do grupo de crianças pesquisadas, aquele que conseguiu esperar por mais tempo por uma recompensa se saiu melhor na vida adulta.

Já a impaciência juvenil é totalmente afetada pela reprogramação hormonal da puberdade. O coração se agita e os nervos se inflamam. Importantes decisões de longo alcance precisam ser tomadas. O passado é quase nada e o futuro é tudo. Essa é uma fase marcada pelo desprezo ao risco e presunção esperançosa de sucesso. Ocorre aqui uma elevada taxa de desconto do futuro, pois a antevisão de um grande porvir afeta a preferência temporal dos jovens.

8 – A escolha intertemporal do ciclo de vida: maturidade e velhice

Na idade madura, a percepção do tempo deixa de ser tão unilateral quanto na juventude. É quando, idealmente, encontra-se um equilíbrio entre impetuosidade e comedimento e ocorrem três grandes mudanças:

  • perspectiva menos assimétrica entre passado e futuro e consciência mais definida da finitude;
  • antevisão menos sonhadora do que a vida reserva;
  • maior capacidade de articular e integrar na mente as diferentes etapas da vida.

Dessas mudanças resulta uma diminuição no grau da impaciência, pois o juro incorrido pode ser fatal.

Já a chegada da velhice surge numa mudança de perspectiva ao saber que o tempo que lhe resta não apenas é finito, mas curto. Aumenta-se o cuidado com a gestão do tempo e da energia disponível, assim como em relação ao dinheiro para se evitar a pobreza na velhice – infortúnio sobre infortúnio. 

Mas, por outro lado, já não é necessário um estoque de poupança para longo prazo e há maior probabilidade de não se ser base de sustento para os familiares. Há forte apelo para se usufruir dos anos que restam. Diante de conflitantes variáveis, a resultante das forças atuantes nas preferências temporais na velhice parece ser indeterminada.

9 – O horizonte temporal relevante

Para termos ao menos uma ideia do valor do futuro é preciso antes definir qual o horizonte relevante a que se tem como referência. A partir do presente, até onde mirar? Por exemplo, na questão da vida após a morte, considerando os extremos de delícias ou tormentos eternos, a própria existência terrena perde relevância não sendo mais que um instrumento do que virá.

Nossas expectativas mudam no decorrer do tempo e são influenciados por fatores culturais, o que leva nosso horizonte de escolhas intertemporais a refletir o horizonte de nossa época. No mundo moderno duas são as principais tendências que afetam nossas expectativas:

  • o aumento da expectativa de vida ao nascer;
  • a obstinada tentativa de suprimir a morte de nossa atenção consciente.

10 – Ciclo de vida, longevidade e finitude

O ciclo de vida é fato biológico, mas a maneira de lidar com ele é fato social. 

Os dois pontos mais relevantes na tentativa de explicar o fenômeno da recusa da morte são:

  1. viver é bom e o terror que a morte inspira é melhor aceito quando se crê que existe “outro mundo” que dá sentido à vida;
  2. nossa mente resiste a focar naquilo que não compreende.

O ideal de vida moderno agride realidades primárias da condição humana e é incompatível com a própria longevidade que ele estimula e tornou viável. Deveríamos aceitar que a juventude não retorna e a velhice será longa, buscando uma relação menos desequilibrada com nosso arco da vida. Assim como suprimir violentamente os impulsos sexuais parece nutrir perversões, a resistência em aceitar a morte pode ter um efeito obscuro, inesperado e doentio. 

O ponto central é que a maior longevidade precisa de uma ampliação do horizonte de tempo relevante em nossas escolhas intertemporais pois, uma vida longa cobra mais atenção às necessidades materiais e espirituais.

TERCEIRA PARTE: Anomalias intertemporais

11 – A textura do presente – uma digressão

Passado e futuro são construções mentais que povoam a memória e expectativas humanas. O presente é a fronteira móvel entre eles e, mesmo ele, tem sua dose de abstração ao ser fruto de nossos limitados sentidos. Aquilo que nosso aparelho perceptivo nos faz cientes é apenas uma fração do que realmente há. 

Além disso, a própria sensação de instantaneidade do presente não passa de ilusão, pois existe sempre uma defasagem no tempo entre o que percebemos e o que é. Jamais teremos contato com o instantâneo absoluto e o presente apenas nomeia o inacessível.

Por outro lado, é a seletividade dos nossos sentidos que nos protege da infinita complexidade do universo.

 O fato é que a ordem que percebemos o mundo é derivada de nossa percepção sensorial e dela depende a arte da escolha intertemporal.

12 – Agir no presente tendo em vista o futuro

Nossas preferências temporais resultam de uma interação complexa entre genética, ciclo de vida e fatores ambientais. 

A faculdade de antever o futuro e o autocontrole necessário para agir no tempo não se distribui uniformemente entre os indivíduos. Essas diferenças variam entre indivíduos e mesmo internamente em cada pessoa. O mesmo indivíduo pode ser muito cuidadoso com o futuro financeiro mas descuidado com a saúde, por exemplo.

Estudam apontam para um embate em nosso cérebro: o sistema límbico tenta nos direcionar para a satisfação imediata sem se importar com o amanhã em detrimento do córtex pré-frontal que pondera as diferentes escolhas e não se deixa levar facilmente pela sedução. Evidências empíricas indicam que as negociações entre esses dois circuitos neurais geram equilíbrios instáveis por considerar a proximidade daquilo que tenta nos seduzir. Daí a grande diferença entre nós e nós mesmos, assim como entre nós e outrem.

13 – A subestimação do futuro: miopia

Duas ameaças nos rondam em relação aos termos de troca intertemporais:

  • Miopia temporal: excesso de valor atribuído ao que está mais próximo, ao hoje;
  • Hipermetropia temporal: excesso de valor ao amanhã.

Pesquisas apontam que estamos mais propensos à primeira ameaça. Normalmente super valorizamos o consumo imediato em detrimento da poupança para o futuro, mesmo não desejando que seja assim. A explicação pode estar no já mencionado desconto hiperbólico, uma combinação instável entre preferências inconsistentes. Nossa capacidade de espera é maior nas escolhas pensadas à distância e menor no calor da proximidade. 

A maioria dos corações é pura quando a tentação anda longe.

14 – A superestimação do futuro: hipermetropia

A hipermetropia temporal é o oposto da miopia. Prevalece o comportamento de resguardar o futuro mas a um custo muito além do razoável para a vida e bem-estar correntes. O zelo excessivo na prática do autocontrole pode gerar um alto descontrole. Um exemplo é a anorexia nervosa. Na área financeira, a avareza. Aliás, sendo o dinheiro uma felicidade humana abstrata, aquele que não a tem em concreto, põe todo seu coração no dinheiro. Toda alma desgovernada se torna sua própria punição.

No campo religioso, uma hipermetropia em relação a esperar nesta vida para usufruir após a morte, pode levar a extremos perigosos onde deixa-se de viver o presente numa aposta frágil de benefício no além. 

Até a moderação, em excesso, torna-se pecado.

15 – Cálculo econômico e uso do tempo: tempo é dinheiro?

A divisão do trabalho e o avanço tecnológico tem possibilitado um aumento gradativo do “tempo livre” dos trabalhadores e acarretado numa dúvida sobre como melhor empregar nosso escasso tempo.

Duas posturas opostas podem ser observadas. 

A primeira, seria simplesmente tentar fugir da questão, extirpando da mente qualquer consciência em relação ao fluxo temporal, numa espécie de “fé na embriaguez”. É um convite sedutor de mergulhar no “eterno presente” de uma “venturosa incosciência”. A experiência tem mostrado que essa postura costuma arruinar uma vida. 

A segunda, baseia-se na tentativa de viver com uma consciência aguda e super controle racional. O problema aqui, assim como na anorexia e avareza, reside numa obsessão por controle que acaba gerando descontrole. O excesso de juízo carece de juízo.

O fato é que, a noção de tempo, assim como a de dinheiro, é uma das abstrações mais poderosas e sofisticadas concebidas pela razão humana. Ambos são entidades abstratas, impessoais e quantificáveis. Da junção de seus conceitos surge a ideia de custo de oportunidade e de que “tempo é dinheiro”. A ideia é muito difundida, mesmo inconscientemente, mas totalmente equivocada. Ao contrário do dinheiro, o tempo não é transferível e nem pode ser poupado. No máximo, consegue-se impactar a velocidade de seu fluxo em relação à nossa longevidade. Além disso, viver segundo essa proposição, gera uma ansiedade constante e nociva à nossa saúde,  impactando justamente no nosso ciclo de vida.

QUARTA PARTE: Juros, poupança e crescimento 

16 – O ser social e o tempo: primórdios

A natureza impõe limites e nenhum agrupamento humano sobreviverá se não for capaz de transferir uma quantidade mínima de recursos do presente para o futuro. Isso porque a longa infância do ser humano estabelece o imperativo da manutenção de uma rede protetora durante os anos formativos.

Em diferentes épocas e formas de organização social o grau de preocupação com o amanhã e consequente transferência de recursos para o futuro revelam enorme variabilidade.

Nas sociedades silvícolas sul-americanas a dominância era do modo de viver aqui-e-agora. Vários são os fatores que explicam essa preferência:

  • Natureza pródiga;
  • Nomadismo devido à necessidade de melhores territórios em meio a disputas tribais;
  • O coletivismo que desestimula a ação individualista;
  • O pensamento mágico que leva a um tipo de resignação fatalista;
  • A baixa esperança de vida.

Esse exemplo mostra que as preferências temporais dos indivíduos têm sua razão de ser e decorrem de processos contínuos de adaptação às condições objetivas vigentes.

17 – Origens sociais da solicitude perante o amanhã

Entre os acontecimentos da história mundial que modificaram de maneira permanente a mentalidade humana, o advento da sociedade agropastoril dificilmente encontra adversário.

O advento da agricultura e pastoreio foi resultado da busca do homem em como induzir o mundo natural a multiplicar o resultado de seus esforços na luta por seu sustento diário. Mas, a domesticação da natureza exigiu a domesticação da natureza interior do homem. Trouxe para o primeiro plano as vantagens da espera, no hiato de tempo entre produção e consumo. Trocou a ação impulsiva e circunstancial do caçador pela rotina e regularidade do lavrador. Fez surgir a arte de fazer o que não se deseja para obter o que se deseja.

O efeito dessa mudança é duplo: ampliação do horizonte de tempo da sociedade e deslocamento do pêndulo da preferência temporal para o futuro.

18 – Os determinantes da orientação de futuro

A orientação de futuro de uma sociedade – a proporção de trabalho social e dos recursos disponíveis transferidos do presente para o futuro – é o resultado da interação das decisões de seus participantes – indivíduos, famílias e organizações e reflete duas forças básicas atuantes:

  1. o grau de impaciência da sociedade;
  2. as oportunidades de investimentos que nela se apresentam.

A primeira força denota o lado subjetivo dos termos de troca intertemporais. É um índice da urgência com que as necessidades e desejos cobram imediata satisfação.

Já a segunda força, designa as características do ambiente em que a sociedade atua – o escopo e a qualidade das alternativas oferecidas.

19 – Poupança e acumulação: o enredo do crescimento

A poupança precaucionária reflete uma postura defensiva perante o futuro. Já a poupança suntuária faz o uso do excedente visando finalidades simbólicas como a construção de templos, ou em obras visando o prestígio do governante, como palácios e monumentos. 

Ambos os casos são economicamente estéreis pois não aumentam a capacidade de gerar bens e serviços para consumo futuro. 

A mudança nessa dimensão da experiência social se deu com a descoberta da poupança reprodutiva, onde o processo produtivo se retroalimenta. Isso ocorre quando abre-se mão de um benefício imediato para se investir em um aperfeiçoamento da capacidade produtiva que, no futuro, recompensará o investimento feito. Desse processo, surge a possibilidade de se repetir o processo indefinidamente até que se chegue ao ponto em que pode-se utilizar a renda gerada como fonte de renda nova: empréstimo a juros.

O fenômeno dos juros é, então, resultado da dinâmica própria das escolhas individuais de toda a sociedade e cria uma assimetria entre as partes (indivíduos) e o todo (sociedade) pois, no seu conjunto, a sociedade não pode viver às custas de si mesma. 

O conflito entre as demandas do presente e as exigências do futuro sonhado é um traço da condição humana e encontrar o ponto certo entre essa tensão é um dos maiores desafios da sociedade.

20 – Variações do grau de impaciência: ética e instituições

O homem adquiriu a arte de planejar e refrear impulsos. Aprendeu a administrar o fluxo das coisas para ter o tempo como seu aliado. Porém, não há uniformidade em nossa psicologia temporal levando a muitas variações entre as sociedades.

Podemos listar os possíveis efeitos de uma sociedade mais impaciente:

  • menos recursos destinados a projetos futuros
  • preferência para os projetos de curto-prazo
  • menor durabilidade e qualidade dos bens produzidos
  • maior probabilidade da busca de recursos externos para melhorar as condições de curto prazo

Há de se considerar o que poderia fundamentar esse foco no curto prazo em detrimento do futuro. Se forem razões éticas – conforme os valores e noções culturais da sociedade – não existe problema a ser resolvido pois trata-se apenas da maneira peculiar de visão de vida. Não pode-se desconsiderar totalmente essa hipótese apesar de ser contra-intuitiva em relação à psicologia moral do homem.

Importa é termos consciência de que a confiabilidade jurídica aumenta a confiança no amanhã. Já o reverso, a instabilidade do marco institucional, mina a confiança no futuro e encurta o horizonte social decisório.

Por fim, sabemos que a relação entre os modos de conceber o futuro, que responde à força e ousadia do nosso querer, não são triviais. O passado condiciona, o presente desafia e o futuro interroga, mas quando a criação do novo está em jogo, resignar-se ao provável e ao exequível é condenar-se ao passado e à repetição.