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O AUTOR: Murray N. Rothbard (1926-1995) foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig Von Mises Institute e possui o título honorário S.J. Hall Distinguished Professor de Economia da Universidade de Nevada, Las Vegas. Fundador do libertarianismo moderno e decano da escola Austríaca de economia, foi também fundador do The Journal of Libertarian Studies, bem como autor de 25 livros sobre economia, história e filosofia. 

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CAPÍTULO I

Introdução

Todos os indivíduos deveriam ter o mínimo conhecimento do que é o dinheiro – fruto de nosso trabalho -, de como surgiu e para que serve. Porém, devido à propensão humana de estudar somente aquilo que considera imediato na resolução de problemas cotidianos, princípios fundamentais de diversos assuntos são deixados de lado.

Por séculos de interferência governamental, a questão monetária se tornou a área econômica mais bagunçada e adulterada, deixando a questão do dinheiro um tema confuso e complexo, com mais perguntas do que respostas.

Diante dessa realidade e em defesa da liberdade e da mínima intromissão estatal em nossas vidas, estudar a maneira de alcançar um livre mercado na esfera monetária tornou-se uma tarefa urgente.

CAPÍTULO II – O dinheiro em uma sociedade livre

1 – O valor da troca

A troca é a base de nossa vida econômica e social. A mesma ocorre, de forma voluntária, porque ambas as partes esperam se beneficiar dela conforme suas particularidades e necessidades. Isso significa que há uma valoração diferente entre as partes, quanto ao objeto da troca. Parece óbvio mas, de Aristóteles a Marx, o homem tem acreditado que uma troca denota algum tipo de igualdade de valor.

2 – Escambo

A troca direta de bens e serviços se depara com dois problemas básicos: a “indivisibilidade” e  “coincidência de desejos”. Como trocar um único objeto por várias coisas diferentes de diversas pessoas? Como fazer que as pessoas que tenham reciprocamente os bens disponíveis e desejados se encontrem? 

Obviamente, não é possível o desenvolvimento de uma economia civilizada sob o arranjo exclusivo das trocas diretas.

3 – Trocas indiretas

Como resposta às limitações do escambo para o desenvolvimento da economia, o homem descobriu a troca indireta. À medida que um bem é mais comerciável que outro, ele acaba adquirindo naturalmente a função de meio de troca indireta. Mesmo que uma pessoa não desejasse aquele bem em si, ela sabe que poderia usá-lo facilmente para adquirir o que desejasse. Inicia-se um ciclo que se auto-reforça e faz com que aquele bem se torne um meio de troca geral: surge o conceito de dinheiro.

Ao longo da história vários bens foram utilizados como meio de troca (tabaco, açúcar, gado, grãos, chá, conchas) até que, espontaneamente, na livre concorrência do mercado, chegássemos ao ouro e à prata como os escolhidos para a função de dinheiro.

E esse processo de evolução cumulativa de um meio de troca no livre mercado é a única maneira de se criar dinheiro na sociedade. Toda e qualquer demanda por dinheiro ocorre porque as pessoas podem calcular preços a partir daquele bem e é sobre esse histórico de preços que a demanda será baseada.

 Com isso, concluímos que governos são impotentes para criar dinheiro do nada e que o dinheiro é, na essência, uma mercadoria que difere das demais apenas por ser demandada majoritariamente como meio de troca.

4 – Os benefícios do dinheiro

Ao superar os problemas da indivisibilidade e da “coincidência de desejos”, o dinheiro possibilitou a especialização e a divisão do trabalho na sociedade. Um violinista pode agora trocar sua música por sapatos através do dinheiro.

A partir do dinheiro é possível comparar o valor de mercado dos diversos bens e serviços, sendo ele o denominador comum na forma de preço. E os preços é que permitem aos empreendedores fazerem o cálculo econômico e avaliar corretamente se estão satisfazendo as demandas dos consumidores e se a sua atividade é viável.

A partir de sua principal função de ser meio de troca é que derivam suas duas características clássicas dos manuais de economia: ser uma unidade de conta (mensurador de valor) e reserva de valor.

5 – A unidade monetária

Como qualquer mercadoria tangível, o ouro e a prata podem ser transacionados pela sua unidade de massa (gramas, libras, onças, etc.). Mesmo que cada país, originalmente,  utilizasse uma designação própria para sua moeda, todas elas estavam explicitamente vinculadas ao ouro. Ainda assim, os cidadãos podiam não enxergar esse fato simples e perceber suas moedas como soberanas e independentes. E foi essa confusão que possibilitou aos países a saída do padrão-ouro.

No livre mercado, portanto, os vários nomes que as unidades podem ter são apenas definições de unidades de massa e o emaranhado de nomenclaturas e “taxas de câmbio” entre moedas de diferentes países foi consequência  da interferência governamental nas questões monetárias.

6 – O formato da moeda

Assim como o tamanho da unidade monetário e seu nome, o formato do metal monetário é igualmente irrelevante. A única diferença entre uma moeda e seu metal em estado bruto é o custo do serviço de cunhagem que deve ser embutido como ágil em sua valoração.

7 – A cunhagem privada

Num mercado livre a cunhagem privada de moedas funcionaria como qualquer outro setor econômico. Cada empresa cunhadora competiria através de critérios de qualidade e confiabilidade perante o mercado. Ao governo caberia o que muitos entendem como sua principal função: a prevenção e punição de fraude, roubo e outros crimes. Daí surge uma enorme contradição, pois, se o governo não consegue exercer sua principal função quanto à cunhagem privada, como confiar nele para ser um monopólio nesta atividade? 

Além disso, o fato é que todos os empreendimentos modernos se baseiam na garantia de padrões, num infinito número de transações intrincadas e dependentes da precisão de quantidades e qualidades. Mas, nesses casos, ninguém supõe que o governo deveria estatizar todas as indústrias a fim de garantir tais padrões e especificações.

8 – A oferta monetária “adequada”

O estoque total – ou oferta – de moeda em uma economia deveria ser a massa total da moeda-mercadoria escolhida pelo mercado como dinheiro. Porém, é muito comum que haja discordância em relação a essa afirmação e se questione qual deve ser a oferta monetária adequada.

As respostas costumam passar por critérios como “aumento populacional”, “o volume de transações” ou “a quantidade de bens produzidos”. O que poucos percebem é que, diferentemente de bens de consumo e de capital, o dinheiro não é consumido e nem exaurido, tendo função exclusiva de ser meio de troca. Ele é o denominador comum de todos os preços e seu próprio preço é simplesmente seu poder de compra. Além disso, um aumento na oferta monetária, ao contrário do que acontece com outros bens, não traz nenhum benefício social. Fazendo um exercício de imaginação, se todas as pessoas em uma sociedade dobrassem o valor monetário que possuíssem instantaneamente, o que fatalmente ocorreria seria o simples ajuste do mercado a essa nova realidade: todos os bens e serviços dobrariam de preço.

A conclusão a que se chega é que a quantidade de dinheiro numa economia não tem importância, desde que o mercado seja livre para fazer seus devidos ajustes em relação às suas variações de oferta.

9 – O problema do “entesouramento”

Uma crítica permanente ao livre mercado refere-se à possibilidade de se gerar um acúmulo exagerado de dinheiro por pessoas egoístas e avarentas. Mas isso não faz sentido. 

Em primeiro lugar, o acumulador não fez nada além de aumentar sua demanda por dinheiro. O resultado, estendendo a situação para toda a economia, é simplesmente o aumento do poder de compra da moeda, como visto anteriormente. Não há perda nenhuma para a sociedade e apenas um ajuste no sistema monetário. 

Além disso, devido à incerteza em relação ao futuro, é natural que as pessoas desejem ter uma reserva de dinheiro. E essa demanda por dinheiro, que tem sua dinâmica própria conforme a percepção do futuro de cada indivíduo, é que gera o equilíbrio do sistema monetário. Apesar de o dinheiro ser útil apenas como troca de coisas de valor, ele não é útil apenas no momento em que ocorre a troca. A incerteza inerente à realidade humana gera demanda por reservas de dinheiro, demanda esta que é parte imprescindível no equilíbrio do sistema monetário.

Vale ressaltar ainda que, apesar de um aumento na quantidade de dinheiro ofertado não trazer nenhum benefício social, a alteração do preço do dinheiro advinda das mudanças de sua demanda produz, de fato, tal benefício. Isso porque satisfaz o desejo legítimo do público por maior ou menor reserva de dinheiro. São essas sutis nuances que causam a maior parte da confusão em relação à oferta monetária.

10 – Estabilizar o nível de preços?

Existem teóricos que defendem a fixação do poder de compra do dinheiro. Alegam que é preciso garantir a “estabilidade” e a justiça na economia. Porém, tal prática implica no oposto a isso. Atribui ao governo um poder que tira a liberdade dos indivíduos e os impede de administrar suas reservas de acordo com sua percepção do mercado. Os empreendedores perdem a capacidade de planejar seus investimentos e projetos ao ficarem à mercê das decisões governamentais. Não ocorre um aumento da produtividade e a sociedade se vê privada de um padrão de vida mais elevado.

Sendo o dinheiro simplesmente um meio de troca, a flexibilidade em seu valor em resposta às alterações de demanda dos consumidores é tão importante e benéfico quanto o livre estabelecimento de qualquer outro preço de mercado.

11 – Moedas paralelas

Idealmente, o dinheiro em um mercado livre poderia ter a seguinte configuração: ouro ou prata sendo utilizados como meio de troca e cunhados por empresas privadas concorrentes, com seu valor de face denominado por seu peso e com seus preços flutuando livremente em resposta às demandas dos consumidores.

A economia seria dinâmica e eficiente em prover os desejos dos consumidores. Ambos metais circulariam lado a lado conforme suas características e contexto de uso (provavelmente, o ouro seria utilizado em grandes transações e a prata em transações rotineiras). 

A taxa de câmbio entre elas seriam naturalmente ajustadas conforme suas demandas, pois o livre mercado é ordeiro, disciplinado, metódico e sistemático mesmo quando há mais de uma moeda em circulação.

12 – Armazéns de dinheiro

Suponhamos que o mercado tenha escolhido o ouro como dinheiro. Naturalmente, uma necessidade que surge instantaneamente é a de armazenar esse ouro. Daí surge a figura do banco – o armazém de dinheiro. Eles guardarão o ouro em troca de recibos de armazenagem, garantindo ao detentor o direito de retirar seu ouro quando desejar. O banco funcionaria como um armazém qualquer, lucrando com a prestação de serviço de armazenagem.

A partir daí, o esperado é que, por conveniência, os detentores dos recibos de um mesmo banco passem a utilizar os próprios recibos como meio de troca, ou seja, os recibos passam a ser um substituto, uma representação do ouro-dinheiro. Num segundo momento, já tendo os bancos conquistado a confiança da clientela, é natural que os recibos sejam gradualmente substituídos por contas correntes bancárias. Agora o cliente basta emitir uma ordem para o banco transferir uma parte de sua conta para outra pessoa. Até aqui, tanto os recibos (cédulas) ou contas correntes não alteraram a oferta monetária, apenas substituem a forma do dinheiro que continua mantido como lastro destes novos instrumentos.

O que ocorre, no entanto, é que os bancos adotam o sistema de reservas fracionárias e emitem mais cédulas do que possuem em lastro. Criam dinheiro do nada e se tornam um agente inflacionário no sistema monetário. Além disso, se tornam insolventes ao não possuírem os recursos necessários para quitar a dívida que ele criou. É uma verdadeira fraude com permissão para ocorrer.

Essa explicação não impugna a prática do crédito, a qual possui função essencial no livre mercado. Em uma transação de crédito o dinheiro é trocado por um título que prevê a devolução do mesmo, numa data futura, acrescida de juros (custo temporal do dinheiro). Já as cédulas bancárias sem lastro não são crédito; apenas títulos que, em tese, permitem a restituição instantânea do dinheiro mas, na prática, não podem garantir esse compromisso.

CAPÍTULO III – A interferência do governo na moeda

1 – As receitas do governo

Como os governos não conseguem produzir e vender bens e serviços, acabam por confiscar os recursos que desejam através da tributação.

Outra maneira, mais sutil e sofisticada, é a falsificação do dinheiro, principalmente através da inflação. Tendo os recursos necessários, o governo cria dinheiro do nada e gera nas próprias vítimas a ilusão de enorme prosperidade. Ao contrário da impopular tributação, a inflação consegue ser bem menos perceptível à sociedade.

2 – Os efeitos econômicos da inflação

Os próprios falsificadores são os primeiros beneficiados pela inflação, utilizando o dinheiro recém-criado para comprar bens e serviços. Na sequência, os gastos em consumo são estimulados e o dinheiro vai percorrendo todos os setores da economia num processo lento de diluição de seu poder de compra e, consequentemente, desigual. As pessoas que estão na periferia da economia perdem seu poder de compra à custa daqueles que receberam o dinheiro antes.ao invés de distribuição de riquezas, ocorre sua concentração.

Outros efeitos desastrosos:

  • distorce o pilar básico da economia – o cálculo empreendedorial – tornando muito difícil a mensuração das demandas do consumidor e do custo de produção e operação;
  • cria uma atmosfera propícia ao consumo exagerado;
  •  suspende o processo automático de penalização das empresas ineficientes pelo livre mercado;
  • diminui a qualidade dos bens e serviços ofertados visto que os consumidores tendem a oferecer menos resistência a aumento de preços quando eles vêem na forma de pior qualidade;
  • diminui a qualidade da mão de obra ao atrair as pessoas a esquemas de fácil enriquecimento;
  • incentiva o endividamento visto que a perda do poder de compra, ao longo do tempo, premia os endividados;
  • quando utilizada para conceder empréstimos, cria os terríveis ciclos econômicos, num processo silencioso e lento que invariavelmente terminam em depressões.

Em estágios avançados, a inflação termina por colapsar a economia. 

3 – O monopólio compulsório da moeda

Antes do surgimento dos bancos, o primeiro passo de controle monetário dos governos foi monopolizar a cunhagem das moedas em nome de sua “soberania”.

Posteriormente, promoveram o uso do nome da unidade monetária, separando a moeda de sua base em massa (peso): dólares, marcos, francos, etc.

A partir daí estavam dadas as condições para o principal meio de falsificação naquele momento: a adulteração.

4 – Adulteração

Uma fraude simples e praticada em quase todos os países da Europa consistia em diluir o ouro em uma liga metálica inferior, tornando as moedas ligeiramente mais leves. Os refugos que sobravam eram fundidos em novas moedas, que eram então embolsadas pelo rei.

5 – A Lei de Gresham e a cunhagem

A – Bimetalismo

A “Lei de Gresham” afirma que uma moeda artificialmente sobrevalorizada tende a tirar de circulação uma moeda artificialmente subvalorizada. Isso porque as pessoas naturalmente buscarão reter as moedas de maior valor real em detrimento das de menor valor real.

Quando o governo desvinculou de sua massa a denominação da moeda e ao padronizá-la conforme seus interesses, o governo criou uma condição em que moedas novas e antigas tivessem o mesmo nome mas com uma massa distinta. O resultado foi a aplicação da Lei de Gresham: as pessoas entesouraram ou exportaram as moedas de maior massa, passando a circular apenas as mais desgastadas.

Outra maneira de causar o mesmo fenômeno foi o estabelecimento de um padrão fixo para a relação entre o ouro e a prata. A maneira astuta criada pelo governo foi a de associar o nome da moeda (que já era uma criação para desvincular a moeda da sua base em massa) tanto ao ouro quanto à prata em valores fixos. Dessa forma, a moeda agora parecia ser algo tangível por si só, e o resultado foi, mais uma vez, o entesouramento de uma moeda em relação à outra conforme as condições naturais do mercado. 

B – Curso forçado

Como a contabilidade das empresas passaram a adotar o nome da moeda ao invés de de sua massa, os contratos começaram a requerer pagamentos em quantias desse “dinheiro”, os quais eram determinados pelas leis de curso forçado. Essa foi a maneira que o governo conseguiu impor seu controle de preço sobre as taxas de câmbio monetárias. 

Isso porque agora ele teria o poder de declarar como curso forçado um dinheiro de baixa qualidade em paralelo à moeda original. A consequência inevitável foi a aplicação da Lei de Gresham: ao consagrar uma moeda sobrevalorizada, os devedores, num primeiro momento, obtiveram vantagem sobre os credores, pois podiam pagar uma dívida com dinheiro de menor qualidade. Porém, os futuros devedores arcavam com o ônus da escassez de crédito gerada por essa situação criada pelo governo.

6 – Resumo: o governo e a cunhagem

O controle governamental do dinheiro tornou- se absoluto com o surgimento dos substitutos monetários aos metais: papel-moeda e depósitos bancários. Estes passaram de dádiva, enquanto lastreados em ouro, para ferramentas de manipulação e controle.

7 – Permitindo aos bancos se recusarem a restituir em espécie

Num sistema de livre concorrência, haveria três grandes limites ao poder de inflacionar o sistema monetário:

  1. a amplitude da clientela de cada banco – quanto menos clientes, menor a margem de manipulação bancária;
  2. a amplitude de clientela de todo os sistema bancário;
  3. a confiança dos clientes em seus respectivos bancos.

Entretanto, tendo o governo desobrigado aos bancos de restituir seus passivos, atuaram na suspensão desses limites. Foi como dar uma “licença para roubar”.

O problema é que não é possível manter um sistema tão rudimentar e descarado sem afetar a credibilidade bancária e de todo o sistema financeiro. O que os governos almejam não é uma inflação controlada e dirigida por eles próprios. E esse anseio resultou em um método sutil, polido e vendido ao público como uma conquista social: o Banco Central.

8 – O Banco Central: removendo as restrições sobre a inflação

Um Banco Central possui sua posição de comando por ter a concessão do governo no monopólio da emissão de cédulas monetárias, as quais são declaradas como de curso forçado na economia.

Como consequência, todos os bancos privados tornaram-se clientes do Banco Central e todo o ouro acabou fluindo aos seus cofres. Em determinado momento, através de campanhas massivas por parte do governo, ocorreu a descontinuação do uso de moedas metálicas, e o resultado foi um poder muito maior de gerar inflação dos seus substitutos monetários – as cédulas criadas pelo Banco Central.

Nesse ponto, em posse de quase todo o ouro do país e endossado pelo governo, o Banco Central conquista grandemente a confiança da população. O próximo passo passa a ser transferir essa confiança para os bancos privados. Isso porque, tendo o controle do limite de expansão de crédito dos bancos, basta ao Banco Central administrar essa expansão de forma uniforme. Assim, para o sistema bancário como um todo, passa a existir apenas uma clientela: todo o país. O crédito agora pode ser expandido de forma ampliada – tudo sob o controle do Banco Central.

9 – O Banco Central: dirigindo a inflação

O Banco Central consegue regular os bancos privados controlando suas reservas bancárias – o dinheiro que os bancos têm depositado no Banco Central. Esse valor é apenas um percentual mínimo, chamado de compulsório, que os bancos precisam ter em relação ao montante que recebem de depósitos.

Nesse modelo, o Banco Central pode estimular a inflação injetando reservas no sistema bancário ou reduzindo a taxa de compulsório. A maneira de aumentar as reservas bancárias é através da compra de ativos, normalmente, títulos da dívida do governo. É uma maneira de garantir liquidez no mercado e financiar os gastos estatais. 

Como os bancos lucram com a expansão do crédito e ainda respaldados pela ajuda do governo, a criação de crédito está sempre no seu limite máximo permitido.

10 – Saída do padrão-ouro

Até o século XIX, países que expandiam sua oferta monetária mais intensamente corriam o risco de sofrer perdas de ouro pelas requisições de restituição do dinheiro que criavam. 

Em tese, uma coordenação de cooperação entre Bancos Centrais poderia burlar estas consequências indesejadas. Bastaria que todos eles inflacionassem a moeda à mesma taxa. Mas devido às circunstâncias e pressões específicas de cada governo, tal cooperação nunca se tornou possível.

Então, a saída encontrada pelos governos foi, na primeira metade do século XX, sair do “padrão-ouro”. Em suma, o governo se recusou franca e diretamente a pagar suas dívidas, e praticamente absolveu o sistema bancário desta obrigação. Agora, suas cédulas se tornaram a moeda padrão e de curso forçado. Ocorre então a separação definitiva entre os vários nomes das moedas nacionais do ouro e da prata.

11 – A moeda fiduciária e o problema do ouro

A taxa de câmbio entre moedas se dá pelos respectivos poder de compra das mesmas. E o poder de compra é estabelecido pela lei da oferta e demanda. Quando uma moda deixa de ser lastreada pelo ouro, além da perda de credibilidade, naturalmente sua oferta aumentará (governos são inflacionários) impactando negativamente em sua demanda. Ao longo do tempo, seu poder de compra irá cair gradativamente. Neste cenário, é natural que o público passe a dar preferência por utilizar o ouro como moeda em detrimento ao dinheiro fiduciário do governo.

Diante de tal ameaça à sua soberania no controle da moeda-corrente do país, governos já tentaram confiscar todo o ouro dos seus cidadãos através de leis e publicidade, como ocorrido nos EUA em 1933.

12 – A moeda fiduciária e a Lei de Gresham

Com a instituição da moeda fiduciária de curso forçado sem lastro físico, os países não tinham mais o temor da perda de ouro. Porém, na prática, o que ocorre é a queda da taxa de câmbio de sua moeda em relação às estrangeiras. Isso gera uma queda do padrão de vida daquele país, o aumento do preço dos bens importados, insegurança e perturbação social.

Para lidar com estas consequências, os governos tendem a adotar políticas conjuntas, abolindo ou limitando as taxas de câmbio flutuantes. Entra em cena novamente a Lei de Gresham, onde as pessoas correm para trocar uma moeda sobrevalorizada artificialmente por uma subvalorizada. Tal fenômeno tem sido recorrente e normalmente o dólar é a moeda procurada para proteção monetária.

13 – O governo e o dinheiro

O dinheiro, como meio que possibilita todas as transações, é o sangue da economia. 

Ao longo dos séculos, os governos foram contínua e crescentemente interferindo no livre mercado até conseguirem tomar o controle do sistema monetário. Inflacionando a moeda para adquirir receitas e favorecer seus grupos de interesse, acabou por fragmentar o pacífico e produtivo mercado mundial. Ajudou a produzir guerras e criou uma tendência socialista para toda a economia.

CAPÍTULO IV – O colapso monetário do Ocidente

Desde que abandonou o padrão-ouro clássico em 1914, o sistema monetário internacional vem oscilando em grande instabilidade. Para entender o atual caos monetário, segue um relato resumido dos principais acontecimentos monetários do século XX.

Fase I: O padrão-ouro clássico, 1815 – 1914

Até o início do século XX, cada moeda nacional era apenas um nome para determinado peso de ouro. Havia um meio de troca comum a todos os países, o que possibilitou o aumento da especialização e da divisão internacional do trabalho, levando a crescimento e prosperidade mundial.

Até então, o padrão-ouro, adotado naturalmente pelo livre mercado, era um mecanismo de obstrução natural ao potencial inflacionário do governo. Isto porque, se um país simplesmente imprimisse dinheiro sem lastro, em algum momento esse dinheiro extra iria requisitar o correspondente em ouro nas reservas do país, levando a uma diminuição das mesmas e, numa situação extrema,  conduzindo a nação a uma situação de falência. Os governos então eram obrigados a realizar uma contração monetária dando início aos ciclos econômicos..

Fase II: A Primeira Guerra Mundial e depois

Para financiar a Primeira Guerra Mundial, com exceção dos EUA que só entraram mais tarde, cada governo teve que inflacionar sua própria moeda numa escala tão grande que tornou impossível manter sua promessa de restituição do ouro que a lastreava. 

O resultado foi o colapso do comércio internacional com guerras cambiais, controle de capitais, tarifas e cotas de importação. O ouro e o dólar saíram fortalecidos em relação às demais moedas.

Era o prelúdio do fim do padrão-ouro, pois os governos não foram capazes de manter suas promessas quanto à restituição de ouro para suas moedas.

Fase III: O padrão ouro-câmbio (Grã-Bretanha e Estados Unidos) 1926 – 1931

Com o fim da guerra, a sensatez deveria levar os países que inflacionaram suas moedas a retornar ao padrão-ouro a uma taxa ajustada de sua moeda. Em vez disso, a Grã-Bretanha, numa tentativa de restabelecer a Libra como moeda forte mundial, não o fez e manteve a antiga paridade Libra-Dólar. Com a moeda sobrevalorizada, perdeu competitividade no comércio internacional e enfrentou grande desemprego.

A saída encontrada foi criar em 1922 uma nova ordem monetária: o padrão ouro-câmbio. Nesse sistema, os EUA permaneciam no padrão-ouro clássico. A Grã-Bretanha restituía libras tanto em ouro quanto em dólares e os outros países do ocidente restituíam suas moedas em libras. 

Esse complexo modelo levou a uma situação insustentável de inflação generalizada dos países europeus e, em 1931, os bancos inflacionados da Europa quebraram. Nesse momento, os países da Europa abandonaram completamente o padrão-ouro.

Fase IV: Papéis-moedas flutuantes, 1931 – 1945

A ordem econômica mundial havia se desintegrado em caóticas taxas de câmbio flutuantes, controles de câmbio e barreiras comerciais. Os EUA decidem então, numa tentativa de sair da depressão, desvalorizar o dólar ao redefinir sua paridade com o ouro e fazer a restituição do metal apenas para governos. 

Surge aqui uma nova teoria defendida por Milton Friedman e a Escola de Chicago em que os papéis-moeda deveriam flutuar livremente entre si, em nome do “livre mercado”. Seria cortado o elo com o ouro e aos governos era esperado que jamais inflacionassem a moeda exorbitantemente.

Foi um período desastroso de guerras econômicas e que levou os EUA a buscar uma ordem monetária viável após a Segunda Guerra Mundial.

Fase V: Bretton Woods e o novo padrão ouro-câmbio americano, 1945 – 1968

A nova ordem monetária internacional foi concebida em uma conferência internacional em Bretton Woods, New Hampshire, e ratificada pelo congresso americano em 1945. Era essencialmente o padrão ouro-câmbio de 1920 porém, com o dólar substituindo a libra. Com o dólar desvalorizado em sua paridade com o ouro (de 1/20 onça para 1/35 onça) e podendo apenas ser restituído por governos estrangeiros, os cidadãos já não podiam trocar seus dólares por ouro.

Com o dólar artificialmente  subvalorizado, havia muita margem para inflacioná-lo e o governo americano embarcou numa grande expansão monetária. Mas, ao longo dos anos, com os EUA inflacionando e os países europeus e o Japão adotando políticas monetárias sólidas e em crescente aumento de produtividade, por volta de 1950, dá-se início a uma constante corrida para a restituição do ouro em poder dos EUA. Esse cenário ocorre por duas décadas, levando o sistema Bretton Woods a ruir rapidamente a partir de 1968. Era mais uma vez as leis econômicas sobrepujando os governos.

Fase VI: O declínio de Bretton Woods, 1968 – 1971

Embora os cidadãos americanos estivessem proibidos de possuir ouro desde 1934, os europeus vinham continuamente vendendo seus dólares por ouro no livre mercado. Com o estoque de ouro em seu poder caindo drasticamente e com a perda da confiança no dólar, os EUA tentaram em março de 1968 criar o “duplo mercado do ouro”. Deveria existir um livre mercado de ouro ignorado e isolado da ação monetária dos governos mundiais.

A ideia era manter o preço do ouro fixo em US$35 até que, no livre mercado, sua cotação caísse drasticamente ao longo do tempo, até que fosse removido do sistema monetário internacional. Mas o que ocorreu foi o extremo oposto. Em 1973 o preço estava em US$125 a onça, revelando a grande perda de confiança no dólar e levando à dissolução final de Bretton Woods.

Fase VII: O fim de Bretton Woods: os papéis-moeda flutuantes, Agosto – Dezembro, 1971

Em agosto de 1971, em meio a um congelamento de preços e de salários na tentativa de combater a inflação de preços, o presidente Nixon impôs o fim do sistema de Bretton Woods. Pela primeira vez na história, o dólar era totalmente fiduciário. Surgia novamente a ameaça das guerras cambiais e da grande depressão mundial.

Fase VIII: O Acordo Smithsoniano, dezembro de 1971 a fevereiro de 1973

O Acordo Smithsoniano, implementado no governo Nixon, era ainda mais instável que o de Bretton Woods. Sem o ouro ou alguma moeda mundial para servir de lastro, muitas moedas européias foram subvalorizadas diante do dólar. Sem um meio internacional de troca, com inflação monetária e de preços, declínio do dólar e déficits de pagamentos dos EUA, o fracasso foi inevitável. No início de 1973, com o preço do ouro no livre mercado a U$215 a onça, o dólar entrou em colapso, levando ao fim do sistema smithsoniano.

Fase IX: Papéis-moeda flutuantes, março de 1973 – ?

Com o colapso do dólar, o mundo retornou ao sistema de moedas fiduciárias flutuantes entre si. Por algum tempo, as coisas funcionaram relativamente bem. Porém, no longo prazo, com os países de moedas fortes vendo suas exportações serem prejudicadas em benefício dos concorrentes americanos, iniciaram uma previsível guerra cambial. Voltava à tona os controles de câmbio e de capitais, blocos econômicos, tarifas e restrições. Com o abandono completo do padrão-ouro, deu-se início o mais constante e prolongado período inflacionário mundial.

Com o padrão-ouro esquecido, avança o objetivo maior dos líderes políticos mundiais da adoção de um padrão monetário baseado em uma única moeda emitida por um Banco Central Mundial (BCM). Tal sistema estaria imune a crises nos balanços de pagamentos, visto que o BCM poderia emitir a quantidade de dinheiro que quisesse, mas traria como consequência uma ilimitada inflação mundial impossível de ser controlada. 

Esse movimento já vem ocorrendo, inclusive com a Europa estando prestes a adotar um papel-moeda único, sob a narrativa falaciosa de criar uma área de livre comércio continental.

Olhando para o futuro, a menos que haja o retorno a uma moeda-commodity de livre mercado – como o ouro -, e uma remoção total da ingerência governamental sobre as questões monetárias, o diagnóstico que pode ser feito para o dólar e para o sistema monetário internacional é sombrio.

Capítulo V – Posfácio 

Por Fernando Ulrich

As seguidas crises que se sucederam após a morte do Autor, em 1955, confirmam suas prescientes análises e previsões acerca de um sistema monetário instável e fadado ao fracasso. 

Diante desse fato, o posfácio dá continuidade à narrativa de Rothbard sobre a evolução da ordem monetária mundial no último século.

Fase 9: Papéis-moedas flutuantes (março de 1973 – setembro de 2008)

Decidido a sanar a mais intensa inflação da história americana a partir de 1970, o FED – Banco Central americano – elevou as taxas de juros até 20%. Isso não livrou a década de 80 de crises como:

  • de dívida externa dos países latino-americanos;
  • da queda brusca da Bolsa de Nova York em 1987;
  • do colapso da indústria de poupança e crédito nos EUA.

Na década de 90, o mundo ocidental experimentou uma relativa estabilidade de preços, mas não devido a alterações das políticas inflacionistas dos bancos centrais. O que ocorreu principalmente foi uma intensificação da divisão internacional do trabalho, liderada pela China, que aumentou em grande escala os ganhos de produtividade e contrabalançou o efeito das políticas inflacionistas.

Isso levou a uma ilusão de que a inflação havia sido domada e que através de políticas de metas inflacionárias seria possível mantê-la sob controle. Foi nesse contexto que foi criado o euro, moeda compartilhada por vários países da Europa e que tinha como objetivo manter o poder de compra e estabilidade da moeda.

Com o aumento da produtividade liderada pela China, a revolução tecnológica da internet e ingresso na economia mundial dos países do Leste Europeu, o milênio tem início num cenário de baixa inflação, baixo desemprego e forte crescimento econômico. 

A ilusão do Santo Graal da política monetária em vigor começa a se desfazer já em 2011 com o estouro da bolha da internet. Diante da crise e para evitar uma recessão, o FED reduz drasticamente sua taxa de juros e puxa uma reação em cadeia mundial trazendo uma renovada expansão monetária. Remediou-se uma bolha criando outra.

Mas a expansão creditícia sem respaldo em poupança real inevitavelmente causa, em algum momento, uma contração do crédito. E foi essa contração o estopim para a crise hipotecária subprime de 2007 que atingiu todo o mundo. Foi a versão moderna da velha corrida bancária levando à maior falência da história: a quebra do banco Lehman Brothers.

Fase X: Desvalorizações competitivas e infinitas (setembro de 2088 – ?)

À beira do colapso do sistema financeiro, o FED, numa política sem precedentes, decide imprimir dinheiro tanto quanto fosse necessário. Ativos tóxicos de bancos ilíquidos foram adquiridos provendo liquidez emergencial a diversas instituições, o que duplicou seu balanço em poucas semanas.

Mas a assunção dos prejuízos do setor bancário pelo governo acabou por gerar crises fiscais em diversos países como Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália, visto que os mesmos agora estavam desprovidos de sua própria máquina de dinheiro e limitados pela “camisa de força” do euro. 

Para enfrentar o problema fiscal, a solução adotada pelos EUA foi mais impressão de dinheiro através da compra massiva de títulos do governo, o chamado Quantitative Easing2. Se o QE1 resgatou os bancos, o QE2 resgatou o governo americano.

Inglaterra e Banco Central Europeu (BCE) adotaram a mesma política socorrendo o governo inglês e os demais países europeus em piores condições, respectivamente.

Atualmente, todo o sistema monetário mundial navega em águas desconhecidas, apoiado em teorias e modelos econométricos de economistas PHDs. O padrão-ouro foi totalmente esquecido e as moedas flutuam entre si sem nenhum lastro real. Sujeito às arbitrariedades dos banqueiros centrais, o sistema é altamente instável e propício a tensões internacionais.

Sob os efeitos gerados pelas medidas inflacionistas dos governos e em meio a tentativa da imposição de um Banco Central Mundial, infelizmente, é preciso muito otimismo para acreditar que os políticos se sujeitariam à única saída proposta por Rothbard: o retorno a um livre mercado de moeda-mercadoria, tal como o ouro, e sem a presença do governo no cenário monetário.

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