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Como ser criativo e resiliente em um mundo que gosta de arrumação

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O autor: Tim Harford é colunista sênior do Financial Times, apresentador do programa More or Less da BBC Radio 4, professor visitante na Universidade de Oxford e integrante honorário da Royal Statistic Society.

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Introdução

O livro é fruto de profunda pesquisa sobre os benefícios criativos da desorganização e da improvisação. O tema é contra-intuitivo para nossa mente programada para a arrumação, o controle e o perfeito mas, a cada capítulo, é explorado um aspecto diferente da desordem mostrando como ela pode incitar a criatividade, nutrir a resiliência e extrair nosso melhor.

Um bom exemplo ocorreu em 1975, na Alemanha, quando após ser convencido pelo desespero da jovem produtora Vera Brandes a se apresentar com um péssimo piano na Ópera de Colônia, o pianista americano Keith Jarrett se vê obrigado a improvisar e adaptar sua performance conforme as más condições do instrumento. O resultado foi inusitado: um espetáculo belo e estranho que levou a plateia ao transe e rendeu o álbum de maior sucesso da história do jazz solo. 

Às vezes, há uma certa magia na bagunça.

1 – Criatividade

“Você está pedindo que o sangue do seu cérebro flua em outra direção.”

Algumas pessoas já entenderam que o caos pode fornecer solo fértil para a criatividade. O músico e produtor musical Brian Eno, utilizava em seus trabalhos um estranho conjunto de cartas chamado “Estratégias Oblíquas”. Cada carta tinha uma ordem inusitada como:

  • Seja o primeiro a não fazer aquilo que nunca não foi feito antes
  • Mude as funções dos instrumentos
  • Torça a espinha
  • Pense como um jardineiro

Esse método, que forçava os músicos a lidar com situações estranhas, foi responsável pela criação de inúmeros sucessos. 

A explicação é que quando se coloca um artista em uma situação desconfortável e não familiar, sua expertise entra em cena forçando-o a ir além do seu normal. Nosso cérebro, assim como o design de um chip de computador, procura a solução mais eficiente dentre inúmeras possibilidades para se chegar a um resultado. Como temos uma natureza criativa e que sempre quer melhorar, o resultado obtido do inusitado pode ser imprevisível e extraordinário.

Outra abordagem para extrair o máximo de nossa criatividade é o envolvimento em vários projetos ao mesmo tempo. Pesquisas apontam que os cientistas mais produtivos são os que executam projetos simultâneos e se beneficiam da fertilização cruzada, em que informações obtidas em um projeto são utilizadas em outro.

2 – Colaboração

A necessária colaboração entre os indivíduos pode ser vista e aplicada de diferentes maneiras conforme as características próprias do que se propõe.

Em 1999, a equipe de remo da Inglaterra utilizou uma abordagem de desligamento total do mundo exterior para focar inteiramente nos próprios integrantes da equipe. O resultado foi a improvável medalha de ouro nas Olimpíadas de Sidney. Os valores priorizados foram foco, confiança e comprometimento. É um modelo de “ligação” entre os próprios membros.

Já uma abordagem oposta foi a utilizada pelo brilhante matemático Paul Erdõs ao longo de sua carreira. Sua forma de trabalho era envolver-se com o máximo possível de parceiros, mesmo sem nenhum vínculo além da busca pelo mesmo resultado. Participou de mais de 500 artigos colaborativos tornando seu nome referência de alcance de rede. É o modelo de “ponte” em que o valor principal é a combinação inteligente de ideias díspares.

Há ainda uma abordagem mista entre “ligação” e “ponte” que é a adoção de redes de equipes. Um exemplo de sua aplicação são os projetos de jogos de computador que exigem o casamento de artistas visuais e de áudio, engenheiros de software, departamento financeiro e de marketing, etc. São várias áreas distintas que fortalecem suas equipes ao mesmo tempo em que, através de integrantes de interseção, trocam informações necessárias para alcançar os objetivos definidos.

Não existindo uma regra esquematizada para nossa abordagem de cooperação é preciso ter consciência de nossa natureza tendenciosa ao mais seguro e confortável. Ao optarmos pelo conhecido, abrimos mão das possibilidades que o diferente nos traz.

3 – Locais de trabalho

O comprometimento com os ideais de beleza, se mal aplicado, pode levar a uma situação de controle e mesquinharia e é um erro comum associar um espaço confortável, agradável e produtivo a um projeto de bom gosto. 

Um ótimo exemplo é o prédio 20 do Massachusetts Institute of Technology (MIT) projetado em 1943, em uma tarde, e construído às pressas para fins militares. Seu design era simplório e o interior confuso e desconfortável. O ambiente era de caos e negligência. Porém, naquele prédio desenvolveram-se tecnologias inovadores como sistemas de radares, aceleradores de partículas, computadores, além das primeiras redes de internet e e-mail. Seus ocupantes o amavam.

A explicação para o sucesso do prédio é sua propensão de fazer as pessoas reunirem-se ao acaso além de, ao ser negligenciado pela própria instituição, gerar uma liberdade de ação aos seus ocupantes que não seria possível em outro local mais organizado e supervisionado.

4 – Improvisação

Improvisar tem o poder de alcançar o extraordinário justamente por se libertar do controle. Libera a criatividade e traz a sensação de algo fresco, honesto e pessoal. Seu elemento mais importante é simplesmente ter disposição de assumir riscos e se jogar.

Em 1963, cerca de duzentos e cinquenta mil pessoas se reuniram em Washington D.C. em protestos pelos direitos civis americanos. Martin Luther King, então famoso orador e líder do movimento, teria sete minutos para discursar para a multidão. Passara a noite com sua equipe preparando o discurso que acabou ficando muito formal, complexo e intransigente.

Diante de uma multidão apática, já perto do fim do discurso, Martin Luther King deixa o roteiro e passa a improvisar. É tanto o perigo máximo quanto a oportunidade máxima. O que se dá é a conclusão de um discurso que sacudiu o século 20 e ficou eternizado com o título “Eu tenho um sonho”.

5 – Vencendo

Em situações competitivas uma maneira de ganhar é incentivar o adversário a perder, através do inesperado e da confusão.

Durante a Primeira Guerra Mundial, essa tática levou notoriedade ao tenente alemão Erwin Rommel. A estratégia consistia em aproveitar as oportunidades que surgiam do caos para improvisar em meio a elas, confundindo ainda mais e paralisando o adversário.

Essa ideia se aplica em qualquer campo, inclusive nos negócios. A Amazon é sinônimo de eficiência organizada, mas segundo seu criador Jeff Bezos, ela é o resultado de uma visão grandiosa com um conhecimento grosseiro de como alcançar essa visão. Surgiu da oportunidade dada pelo advento da internet e, diante dela, ao invés de desacelerar em meio a uma demanda brutal para se reorganizar, acelerou absurdamente em meio ao caos imposto pelo próprio crescimento. 

Outro exemplo de se beneficiar do caos é a inesperada ascensão de Donald Trump na política. Concorrendo contra opositores experientes e altamente organizados, através de tuítes inflamados e rápidos, Trump ganhava as manchetes e intenções de votos. Por fim, através dessa estratégia simples e livre, chegou à presidência.

Para tentar explicar o sucesso através do caos, o cultuado pensador militar John Boyd elaborou um documento que se tornou referência. Criou a teoria, conhecida como “Padrões de Conflito”, que se resume a quatro palavras: observar, orientar, decidir,  agir (loop OODA). Sua ideia era tirar proveito do caos agindo no exato momento em que o adversário fica paralisado tentando entender a situação. 

6 – Incentivos

A ideia dos governos e corporações de que quanto mais se compreende o mundo, mais se pode controlá-lo e explorá-lo, tem levado à criação de inúmeras regras disfuncionais e mesmo nocivas.

A área da saúde, por ser muito regulado, é um vasto campo dessas ocorrências. Enquanto primeiro-ministro britânico, Tony Blair, a fim de melhorar o sistema de saúde do país, adotou um sistema de metas que responsabilizava seus servidores. Uma dessas metas era a obrigatoriedade de atendimento em até 48 horas para os pacientes que buscassem um médico do sistema. O resultado foi a manipulação dos agendamentos de consultas de rotina, dificultando e mesmo impedindo a realização das mesmas. O que em tese deveria favorecer o público em geral acabou prejudicando-o. 

Outro exemplo é a escala de Apgar, um teste criado para avaliar, através de uma pontuação, a condição física do recém-nascido. O método em si é simples e importante mas, por resultar em um número averiguável e comparável, extrapolou a avaliação para os médicos responsáveis pelos partos. O que se viu foi a distorção dos resultados e, até mesmo, a realização desnecessária de cirurgias cesarianas.

Mais uma situação ocorrida que vale mencionar se deu nos anos 90 na Pensilvânia. Para facilitar a escolha dos médicos pelos pacientes, foi introduzido pelo governo um sistema público de boletins de desempenho dos profissionais da área. Devido ao interesse dos médicos em aumentar sua pontuação no boletim, cirurgias cardíacas desnecessárias foram realizadas além da implantação de marca-passo sem nenhuma justificativa.

O fato é que situações semelhantes acontecem o tempo todo nas mais diversas áreas. Seja nos negócios, como no caso da gigante fabricante Volkswagen pega em 2015 fraudando testes de emissão de gases ou em situações corriqueiras como um motorista de ônibus avaliado por cumprir seu horário e que não pára para recolher os passageiros.

O motivo para esses problemas ocorrerem talvez seja nossa atração pela ordem através da regulação. Com isso, os sistemas criados são passíveis de manipulação e dificilmente alterados.

Uma possível solução seria uma abordagem mais bagunçada para a supervisão. No caso citado anteriormente da Volkswagen, o que expôs sua trapaça não foram regras eficazes, mas a ação de um grupo sem fins lucrativos que instalou e monitorou aleatoriamente as emissões dos carros da VW. O que os reguladores podem estar precisando é, ao invés de um exército, de uma pequena “tropa de elite” atuando com mobilidade e imprevisibilidade.

7 – Automação

Sistemas automatizados, criados para facilitar nossas atividades, podem levar a um problema conhecido como paradoxo da automação: quanto melhor o sistema, mais enferrujado o operador humano. 

Isso se aplica desde operações complexas como em usinas nucleares até situações corriqueiras como nossa dificuldade em memorizar números de telefone já gravados no celular.

Podemos distinguir três aspectos dos sistemas automatizados:

  • ocultam a incompetência por serem fáceis de operar e corrigirem erros automaticamente
  • corroem a competência por não exigir que elas sejam praticadas
  • tendem tanto a falhar em situações atípicas quanto de maneira que produzem situações atípicas

Todos esses fatores ajudam a explicar o terrível acidente aéreo ocorrido em 2009 no voo 447 da Air France. Contando com um sofisticado sistema de automação, o Airbus A330 tinha um excelente histórico de segurança, com nenhuma queda registrada desde o início de sua operação em 1994. Tal sistema deixava pouquíssima margem de interação humana na pilotagem. Ocorre que, diante de uma condição inusitada que desabilitou o sistema, a tripulação não teve a capacidade de lidar com a situação relativamente simples de se contornar. A consequência foi, após uma sucessão de eventos que evidenciaram o despreparo da tripulação, a queda do avião e a morte de todos os ocupantes.

Erros provenientes da automação ocorrem todo o tempo, desde multas de trânsito injustamente aplicadas a erros de registro em banco de dados que se proliferam através de complexas redes governamentais. Tudo devido a uma exagerada delegação de autoridade aos computadores. 

Talvez a solução para lidarmos com a tecnologia e seus sistemas automatizados é inverter a ordem e passarmos a ser operadores monitorados pelos sistemas e não o contrário.

8 – Resiliência

Na natureza a bagunça muitas vezes indica saúde.

Para defender essa ideia consideremos o caso ocorrido em 1763 onde hoje é a Alemanha. Silvicultores, a fim de explorar comercialmente uma mata selvagem, acabaram por priorizar o plantio de determinada árvore. A partir daí, paulatinamente, a bagunça natural da floresta foi sendo desfeita dando lugar a fileiras ordenadas de abetos. Comercialmente tudo fazia muito sentido até que percebeu-se que a ordenação abrira uma porta para diversos parasitas além de empobrecer o solo. A produção foi fortemente impactada, chegando-se ao risco de torná-la inviável. Hoje, mais de dois séculos passados, tem-se tentado voltar a floresta para uma configuração mais próxima da original.

Outro exemplo é nosso complexo sistema de flora bacteriana intestinal. Apesar da importância da utilização de antibióticos em certos casos, hoje sabe-se que somos hospedeiros de dez mil espécies de bactérias e que elas passam de benéficas ou perigosas em determinadas quantidades e situações. É preciso muito critério para modificar esse sistema porque o que importa no final é o seu equilíbrio.

Curiosamente, essa “bagunça” saudável originada da diversificação na natureza encontra aplicação em questões sociais e econômicas. Pesquisas revelam que ruas, bairros ou cidades que têm grande diversidade de comércio, raça, nível social e de faixa etária são mais resilientes que locais mais homogêneos e artificialmente organizados. A médio e longo prazo tendem a se desenvolver e prosperar mais. O mesmo efeito ocorre em países com economias diversificadas.

9 – Vida

Em uma lista de virtudes tais como frugalidade, disciplina, diligência, limpeza, etc a virtude da ordem provavelmente será a mais difícil de ser alcançada. Isso porque temos uma mente arrumadinha que admira a ordem mas que nega o fato de a bagunça ser um subproduto inevitável de coisas boas.

Tendemos a gastar muito tempo criando estruturas organizacionais, sejam pastas de e-mails, sejam pastas físicas catalogadas para todo e qualquer documento, mas a prática demonstra que além do esforço exigido na criação dessas estruturas, seu resultado é inócuo. O simples mecanismo de busca do computador economiza tempo em se encontrar um e-mail assim como um empilhamento de documentos físicos à medida que vão sendo utilizados faz uma seleção natural do que é importante e do que é descartável.

Esse “preciosismo” pela arrumação também pode nos trazer problemas na organização de nossos calendários. A ideia de planejar o calendário bloqueando-o para as tarefas que consideramos mais importantes acaba por, além de custar tempo e energia, engessar nossa ação para o que é mais apropriado a cada momento.

Ainda podemos extrapolar essa ideia da necessidade natural que temos por arrumação, para o campo social. Criamos mecanismos automatizados para encontrarmos nosso par perfeito em aplicativos como Tinder, Match, eHarmony, etc mas, a despeito do que eles prometem – encontrar a pessoa que se encaixa com nossas expectativas – não sabemos o que queremos e mesmo se soubéssemos não seríamos capazes de dizê-lo a um computador.

Enfim, nosso desejo por controle e segurança pode nos privar da experiência da vida acontecendo em tempo real com todo o aprendizado que ela oferece e, muitas vezes, arrumar uma bagunça pode ser  um ato de vandalismo!