Introdução

O mundo sempre demanda soluções para vários problemas e é possível buscar indícios das invenções que apresentam grande potencial de respondê-los. A história tem mostrado repetidas vezes que o que era improvável veio a se tornar o novo normal e, quando isso acontece, normalmente os resultados não são lineares mas exponenciais.

Como inovação tecnológica, as criptomoedas se encaixam nesses aspectos. Sua proposta passa por ser uma resposta ao sistema financeiro tradicional e suas mazelas – centralização de poder, controle monetário, suscetibilidade a grandes crises periódicas  – e ser ainda muito mais do que dinheiro.

Uma brevíssima história do sistema financeiro e do dinheiro

A milhares de anos atrás, o comércio era feito por trocas diretas dos alimentos produzidos. Ao longo do tempo, essa forma de comércio vai se revelando inviável por diversos motivos e, em determinado momento, na Babilônia, surge a figura dos bancos. Estes eram silos onde as pessoas depositavam sua produção de alimentos e recebiam tabletes de argila indicando a quantidade depositada.

Esses tabletes já atendiam então ao propósito de dinheiro. Num segundo momento, os bancos passaram a emprestar os tabletes de argila para recebê-los de volta no futuro, acrescidos de juros. Era o começo da estrutura financeira que perdura até hoje.

Se por uma lado esse modelo fez com que a sociedade prosperasse até os dias atuais, por outro, temos um sistema financeiro obscuro e que funciona como intermediário sobre a circulação monetária, retirando daí o seu lucro. Isso deixa o próprio sistema instável, funcionando através de ciclos econômicos e suscetível a grandes crises.

Uma delas, a crise do subprime de 2008, afetou o mundo e foi um evento precursor ao surgimento do Bitcoin e do blockchain.

A revolução-estrelando: o Bitcoin

Na sequência histórica do desenvolvimento do sistema financeiro, chegamos ao momento em que o lastro em ouro de toda moeda colocada em circulação pelos bancos centrais, deixa de ser adotado. Temos então a chamada “moeda fiduciária”. Seu valor se dá pela “fé” que devemos ter em seu emissor. Daí surgem dois problemas:

  1. os bancos centrais têm o poder de valorizar ou desvalorizar o dinheiro através de sua impressão
  2. consequentemente, as pessoas deixam de ter controle sobre o valor do próprio dinheiro

O Bitcoin surgiu em 2009 com o objetivo de acabar com essa centralização do controle sobre o dinheiro. Seu sistema permite que sejam feitos pagamentos entre pessoas sem a necessidade de um agente intermediário.

Por dentro do Bitcoin

O Bitcoin é um protocolo de regras que determinam como os valores são transferidos entre dois usuários. Apesar de sua complexidade, não é necessário entender seus detalhes técnicos para utilizá-lo. Os próprios usuários de sua rede são os validadores das transações (chamados mineradores) e a criptografia utilizada garante sua segurança. Todos os participantes podem ver todas as transações e mais de uma pessoa valida uma mesma operação. O Local onde ficam esses registros é o blockchain, uma enorme pilha de informações de todas as transações do Bitcoin desde seu início.

Tem-se então uma rede auto-suficiente onde a criação de novos bitcoins é controlada pelo próprio protocolo em um processo deflacionário – a cada quatro anos a emissão de novos bitcoins cai pela metade até atingir o limite máximo de 21 milhões de criptomoedas criadas.

O hype e a pergunta: é bolha?

Pela natureza disruptiva de sua proposta, o que se observa em relação ao bitcoin é a formação de várias bolhas ao longo do tempo desde sua criação. Esses ciclos de altas e baixas têm ligação com a expectativa que as pessoas constroem em torno de sua utilidade.

Mas o que pode-se observar é que sempre que há um “estouro da bolha”, em seguida o preço se recupera e acaba superando a máxima anterior. Isso evidencia a característica de antifragilidade do ativo, em que a cada teste de estresse ele sai fortalecido.

Anatomia de uma inovação

Diferentemente de melhorias incrementais, inovações tecnológicas disruptivas apresentam características de exponencialidade de desenvolvimento e resultados. O mercado de ativos digitais está no meio de um processo de desenvolvimento e está longe de ser linear. Para o investidor, cabe avaliar se a assimetria entre o potencial de ganhos e perdas é convidativo para justificar um investimento.

No caso das criptomoedas a resposta é bastante óbvia, mas vencer a mente humana, acostumada a pensar de forma linear, pode ser uma decisão bem difícil.

Para vencer essa dificuldade e haver uma adoção em massa das criptomoedas é necessário que, além de uma visão de utilidade pela sociedade, alguns gatilhos sejam acionados:

  • Melhor usabilidade (wallets, corretoras, etc) 
  • Instrumentos de varejo e acesso de investidores institucionais
  • Perda da confiança nas moedas fiduciárias

Blockchain: A tecnologia disruptiva que vai mudar o mundo

Por trás de quase todos os projetos de criptomoedas existe uma tecnologia disruptiva: o blockchain.

Podemos defini-lo simplesmente como um registro de dados extremamente confiável. Sua utilização é que torna o intermediário de confiança desnecessário nas negociações entre duas partes. Sua segurança advém em grande parte do fato de ser distribuída a vários participantes da rede (nodes). Além disso, a cada transação incluída em sua cadeia de dados, aumenta-se o grau de dificuldade em adulterá-lo. Sua aplicação é indefinidamente ampla pois, várias são as atividades que demandam registros.

Pode-se dizer que o blockchain do bitcoin possibilitou a aplicação de uma privacidade seletiva. São informações disponíveis a qualquer um mas, ao mesmo tempo, apenas para quem possa se interessar. 

Sua manutenção, na maioria dos casos, se dá pela regra de incentivo prevista no próprio protocolo, onde as pessoas que despendem poder de processamento de suas máquinas para validar as transações da rede (e gastam energia para isso), são recompensadas em criptomoedas. 

Não há órgão central que regula seu funcionamento e cada participante tem sua parcela de poder.

Além do dinheiro: O universo das outras criptomoedas

Ethereum: Uma Apple sem dono

Assim como a Apple disponibiliza uma plataforma IOS para vários aplicativos, a rede Ethereum tem a proposta de ser esta plataforma, porém, de forma descentralizada. 

Qualquer pessoa pode fazer parte da rede emprestando poder computacional a ela e sendo remunerada em seu token nativo, o ether. Atualmente, a rede tem rodado contratos inteligentes (smart contracts) que consistem em uma série de condições que autorizam ou não a realização de algo, sem a necessidade de uma terceira parte envolvida.

A partir de sua rede chega-se a outra classe de criptoativos: os criptokens.

Criptotokens

Assim como fichas de uma quermesse representam uma quantidade em dinheiro válida naquele ambiente, os criptotokens funcionam da mesma forma dentro de seus próprios ecosistemas e são chamados utility token.

Outras Criptomoedas

Litecoin

Criada em 2011 com o objetivo de ser uma rede de pagamento mais eficiente que o Bitcoin, através de transações mais rápidas e baratas.

Dash, Monero e Zcash

Foco na privacidade com transações totalmente anônimas.

GUIA PRÁTICO PARA INVESTIR EM CRIPTOMOEDAS

Onde comprar

Apesar da possibilidade de se adquirir criptomoedas diretamente de terceiros (“peer to peer – P2P”), a maneira mais comum de negociá-las, assim como no mercado tradicional, é através de corretoras (exchanges). Por serem ativos globais, existem inúmeras opções de corretoras nacionais e internacionais. O processo de abertura de conta costuma ser similar em ambos casos, onde dados pessoais são solicitados e após verificação dos mesmos, a conta fica liberada para operar.

Formas de armazenamento

Armazenar as criptomoedas na própria corretora é prático, mas, ao delegar a terceiros a posse dos ativos, assume-se o risco de fraude e hackeamento.

Para não correr esse risco, uma opção é recorrer a software wallets – aplicativos de celulares ou sites que se conectam com o blockchain. Tecnicamente, as wallets são apenas chaves de acesso ao blockchain, onde, de fato, as criptomoedas estão registradas.

Outra possibilidade é o armazenamento em dispositivos semelhantes a pendrives, e essa é a forma mais segura de armazenamento.

Estratégias de investimento

As criptomoedas são investimentos de assimetria extremamente positiva. O máximo que se pode perder é o valor investido e o máximo potencial de ganho é praticamente infinito. 

Por outro lado, por ser uma classe nova de investimentos e com muitos riscos envolvidos, não é aconselhável passar de 5% de alocação em um portfólio. Não é prudente deixar de possuir assim como possuir em quantidade excessiva.

A seguir, algumas estratégias de investimento:

  • Trading: pouco importa o tipo de ativo e o foco é no fluxo de dinheiro para aproveitar oportunidades
  • Buy and hold: escolher criteriosamente um ativo levando em conta a equipe técnica envolvida, o tempo de vida, o engajamento da comunidade, o volume, a liquidez, a plataforma e a usabilidade. A ideia é  mantê-lo na carteira por tempo indeterminado, apostando em sua valorização a longo prazo
  • Compras graduais fixas: investe-se periodicamente valores fixos reservados atenuando os efeitos da volatilidade dos preços 
  • Custo médio de aquisição: investe-se pontualmente quando oportunidades de preços baixos são geradas

CONCLUSÃO

As criptomoedas revolucionam as estruturas tradicionais. São inovações que precisam de maturação para destravar todo o seu potencial e, uma vez que isso acontecer, o caminho está livre para uma ampla aceitação e apreciação de valor.

Seu surgimento só foi possível devido ao desenvolvimento de várias áreas de conhecimento humano que convergiram para sua criação: computação, comunicação, estatística, matemática, criptografia, economia e outras.

Apesar de não haver garantia de que tais criptoativos perdurarão para sempre, estamos diante de uma das maiores inovações da história do sistema financeiro, talvez da história da humanidade. Ficar indiferente a isso é inaceitável.